Sexta à noite, hoje anoiteceu tarde, esse é meu último dia com obrigações em minha semana, trabalho de manhã e estudo durante a tarde, hoje o dia fora estranho, tenho de ser sincero convosco, não me encontro em meus melhores dias, tive uma série de problemas pessoais, especialmente relacionados a questões amorosas, não creio que isso deva ser tratado, mas é necessária a contextualização para que compreendam como uma das piores semanas de meus últimos anos teve um final digno e gratificante.
Após a aula de hoje, conversei com um amigo, compartilhamos algumas ideias, dentre elas, o existencialismo se fez presente em grande parte da conversa, a vida deve ser vivida para além das morais e entendimentos humanos, deve ser consumada através das experiências, das conversas sem sentido, dos jantares, da contemplação das obras de arte e sua natureza inútil. Para que possamos alcançar a felicidade e a fraternidade, para além da razão, devemos nos permitir sentir a bondade da empatia para com o próximo, a sutileza do paladar enquanto apreciamos uma sobremesa, a natureza instigante do conhecimento inútil e dentre inúmeras demais vivências.
Esclarecidas tais ideias, que já se constituíam lógicas em minha mente, porém não haviam sido consumadas verbalmente, senti a felicidade genuína da existência preencher meu corpo novamente, pus-me a pensar em quais atos poderiam exprimir uma boa sensação de mim, rapidamente surgiu em minha memória uma festa a qual ocorreria no lago municipal, mas após algumas ponderações, cheguei a uma conclusão mais interessante, iria para a biblioteca da faculdade.Fui até a seção de romances, não queria nenhuma obra excessivamente prolongada ou nova, observei os títulos nas prateleiras e encontrei o livro perfeito para uma noite como aquela, “O Apanhador no Campo de Centeio”, me sentei e comecei a folhear as páginas, a linguagem era simples e bastante íntima, uma narrativa profunda, porém leve.
A luz amarelada não é indicada para locais de leitura, ela causa conforto, consequentemente, sonolência, após quase uma hora meu corpo começava a demandar pelo descanso, fui até a máquina de café e coloquei algumas moedas, apertei o botão do cappuccino, realmente gosto de ver ela funcionando, o copo de isopor sendo colocado de forma automática, o barulho da máquina e o líquido saindo parecem como uma dança tranquila.
Voltei para a mesa e continuei lendo enquanto tomava meu café, toda a inquietude e ansiedade para com meu passado e relacionamentos cessaram, como se aquela biblioteca fosse alheia ao mundo, nada de fora poderia adentrar o conforto daquele ambiente. Poderia passar horas ali, realmente o fiz, até que chegou a hora, deveria ir para casa, se não fosse naquele momento, perderia o último ônibus, emprestei o livro, comprei outro copo de cappuccino e alguns lanches prontos na máquina de vendas.
Durante a espera e o trajeto de volta, tomei o café, não senti a ansiedade dos últimos dias, me senti totalmente renovado, quando cheguei em casa, desabei na cama, liguei minha pequena televisão de tubo e procurei por algum documentário inútil, com teorias pouco comprovadas sobre coisas irrelevantes, geralmente passam durante o final da noite e toda a madrugada, encontrei um bastante interessante, se tratava de um documentário sobre as profecias do fim do mundo maia, neste momento está quase em seu fim, decidi registrar esse simples, porém belo momento de minha existência.


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